REFLEXÃO SOBRE AS POLÍTICAS DE MÁSCARA – por Adão Cruz

REFLEXÃO SOBRE AS POLÍTICAS DE MÁSCARA

por Adão Cruz

 


Pintura de Adão Cruz

O mal destas políticas e deste tipo de eleições domesticadas, desinformadas, desconsciencializadassem ideias, sem projectos nem horizontes deixa-me descoroçoado, a mim que tanto lutei por eleições livres e conscientes. Este emaranhado de mentes vazias, desertificadas, desenraizadas de tudo cria em mim uma tristeza imensa. Esta indigência mental atrofia a minha capacidade de manter de pé o meu raciocínio e julgamento. Este rebanho, alheio aos problemas do país e do mundo, arrepia-me e arranha-me o espírito. Da infernal religião do mercado, aos rituais dos sacerdotes do poder e dos púlpitos reverenciais do dinheiro, aos malabaristas da usurpação e mestres no culto da ignorância, espalhados por todos os cantos do mundo, às reuniões e congressos onde é notório o défice de ética, humanidade e moralidade, às cimeiras de repartição do que ainda resta do país e dos povos do mundo, aos inglórios debates em que a todo o custo se procura a vitória da mentira sobre a verdade, aos estupidificantes comentários dos destruidores de neurónios, vendidos e com etiquetas de preço nos seus comportamentos negociáveis, à perversão dos mais sérios conceitos, à descarada hipocrisia desta floresta de enganos e desvios, à inversão e anulação de valores, nada me permite um  mínimo de tranquilidade e confiança. Do petrificado pensamento único que tenta criar um homem desprovido de razão e vontade quase ninguém fala. O obsessivo culto do corpo e do luxo em detrimento do desenvolvimento mental, quase anula a maior riqueza humana que é a cultura, considerada supérflua, perigosa, inimiga do poder. Da ética, da dignidade e da justiça, valores supremos do homem, quase ninguém fala, e se ainda há vozes que gritam contra a barbárie e a profunda desigualdade, são abafadas em todos os canais da estupidificação e da mentira. Da despudorada, agressiva e cruel ingerência externa no coração dos povos soberanos ninguém quer saber. Da prostituição e submissão da própria ciência aos apetites e interesses do poder, ninguém se importa. No tenebroso domínio do poder económico sobre o poder político e os direitos dos povos, não são muitos os que levantam a voz e menos os que param para ouvir. É este o mundo em que vivemos e o mundo que vive dentro de nós. Quaisquer eleições nacionais pertencem ao mundo, fazem parte do mundo e o mundo faz parte de qualquer eleição. O que de bom e tenebroso acontece no mundo não pode ser indiferente a quaisquer eleições. Como é possível haver eleições indiferentes às guerras, à barbárie e aos genocídios que trucidam os desvalidos, humilhados e ofendidos deste mundo? Infelizmente, uma parte da humanidade ainda vive acomodada na cama da indiferença, e mesmo regozijando-se a ver o sangue correr. Porém, felizmente e conscientemente os tempos estão a mudar e uma grande parte dos povos por esse planeta fora está de olhos bem abertos e braços no ar gritando a todos os pulmões a voz da resistência e da esperança.

 

 

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